Artigos | Postado em: 27 março, 2026

Redução da jornada 6×1: medida populista pode custar R$ 4,1 bilhões ao agro do Paraná

A proposta de redução da jornada de trabalho no modelo 6×1, com diminuição de 44 para 36 horas semanais, pode parecer, à primeira vista, uma conquista social.

Mas, na prática, os números revelam outra realidade.

Levantamento apresentado pelo Sistema FAEP aponta que essa mudança pode gerar um impacto de R$ 4,1 bilhões por ano apenas na agropecuária do Paraná. E o problema está longe de ser apenas contábil.

O estudo, elaborado pelo Departamento Técnico e Econômico (DTE) da FAEP, parte de dados concretos: 645 mil trabalhadores no agro paranaense; massa salarial anual de R$ 24,8 bilhões; encargos já elevados sobre a folha.

Com a redução da jornada, surge um “vácuo operacional” estimado em 16,6%.

Na prática, isso significa uma escolha forçada. Ou o produtor contrata mais trabalhadores, ou arca com o pagamento de horas adicionais.

Em ambos os cenários, o resultado é o mesmo, pois aumenta expressivamente os custos.

O estudo ainda aponta a necessidade de aproximadamente 107 mil novas contratações para manter o atual nível de produção.

E aqui surgem perguntas que não podem ser ignoradas. Há mão de obra disponível? há qualificação suficiente? há capacidade financeira para absorver esse aumento?

A realidade do campo indica justamente o contrário, pois há falta de trabalhadores, aumento do endividamento e margens cada vez mais apertadas.

Criar uma obrigação sem enfrentar esses gargalos não gera emprego, gera distorção.

Diferente de outros setores, o agronegócio não funciona em horário comercial, porque animais precisam ser manejados diariamente, o leite precisa ser coletado todos os dias e a safra não espera.

Por isso, o impacto é ainda mais severo como se destaca abaixo:

São R$ 1,72 bilhão por ano na avicultura e suinocultura;

São R$ 900 milhões nos grãos;

São R$ 570 milhões nos laticínios;

São R$ 910 milhões em cadeias intensivas em mão de obra.

Assim, não se trata de escolha, mas de necessidade operacional.

Antes de discutir a redução da jornada, é preciso encarar a realidade.

O Brasil ainda convive com infraestrutura logística precária, elevada carga tributária, excesso de burocracia e baixa qualificação da mão de obra.

Portanto, reduzir a jornada sem enfrentar esses problemas gera uma consequência grave ao agro, retirando competitividade de quem já opera no limite.

Concluindo, a discussão sobre jornada de trabalho é legítima, mas não pode ser conduzida com base em discurso fácil. Quando uma medida gera impacto bilionário, exige mais do que popularidade, exige responsabilidade.

Sem análise técnica, sem diálogo com o setor produtivo e sem considerar a realidade do campo, uma proposta aparentemente social se transforma em um problema econômico de grandes proporções.